sábado, 3 de março de 2018

"Um Punhado de Sombras"

“Um Punhado de Sombras”

Vem, a criança, eterna em mim, desvendar-se nos tantos tempos que simulei…

Parei de crescer quando me vi assombrado de dúvidas, quis do meu pai mais, modificar-lhe o ser, não, desastrado resguardei-me nos medos infantis, desenhei-me levando aos olhos um saber desabitado, negro, insípido, as moradas certas de gente errante eu vi…

Corri os mundos desvendados deste ser que sou, entreguei-me pedinte nas mãos eclesiásticas do saber, desastrado, de novo, um mar de ondas desatinadas bebe-me da voz que grita num deserto de sede.

Os tantos lugares por onde passei, vi-me descer á terra sem saber, vivi de monstros, alimentei-me de fome, sonhei que podia ser, palavra pura absolvendo o pesadelo dos homens.

Uma fé desistia, um passeio de chuva, um desespero sofredor de alma escura, fui, sou, a criança despedindo-se da terra impura… 

Os medos…. 

Um punhado de Deus absolvesse o olhar que trago dormindo, acordasse o coração que se entrega miúdo, pedindo, clamando, carinho…
Um punhado dos meus mundos me fizesse fiel, me houvesse afundado no terror das ilusões, que entrega total me acorrentou num sol doentio, a luz esgana o poder destas mãos, abraçam, desejo de ser vivo na sede de um rio.

Meu punhado de sombras!...

É o tempo! O tempo que não vive…

Vem, a criança, eterna em mim, invadir a profundidade do meu eu, às pernas quebradas no sabor de um verso, desfalecer, no limiar das memórias, tempo percorrido, vem, inocente, dizer-me que sim, não houvesse eu sofrido, não mais viveria aqui, em mim.

Há esta dor desaguando os braços caídos, ligados à terra, destituídos, sem nada para aprender, dói-me, dói-me crescer…

Tantas magias deambulando marés vazias, sorrisos devoram o meu céu, viajei, parti, cheguei…
Vazio, evasivo, inconsciente da dor de ter partido, demente, desabituado do meu abrigo, magoado…

Um punhado de dor, transparência da minha pequena janela, corredor para uma galáxia de fantasias, os corredores das minhas veias singularizam as palavras que dei em demasia.

Eu, fui feito de circos, fui uma mentira usurpando dos quartos da noite, estrelas perdidas, fui, quando homem, dividido, uma besta mastigando de todos os caminhos, fui, uma minúscula gota bebendo de um oceano, fui o próprio rio das minhas palavras para tentar mudar o tempo, fui, doente desviando os corredores distantes do meu invento.

Fui um circo de medos espalhando dor, fui tempo despercebido clamando amor, fui fera revoltada aprisionado em mundos de terrores, estes… Estes foram alguns dos meus mundos!

Pergunto:

Não valerá mais a pena ser somente uma criança?

Um punhado de esconderijo abraça a porta de passagem do meu corpo terreno ao céu infinito, onde me espera um Deus de Olimpo.
Antes e depois, fiz-me no simbolismo da criança, princípio e fim.
A arena ensanguentada de momentos, dos meus momentos, gritam à minha volta as memórias dos tempos, gritam ordenando uma matança aos sentimentos… 
Os meus sentimentos.

Ao centro o palhaço sorri loucamente, sou eu, demente, perseguido por um punhado de respirações de gente, a terra abre-se para que eu passe, enfeitam-se árvores de vento com sorrisos de tempo… 

Criativo, meditativo, que me resta mais senão o chão sombreado, os punhos no 
Um punhado de vidas…

Um punhado de sombras!!!...

Paulo Themudo 
in "Um Punhado de Sombras" - Temas Originais (2010)

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