sábado, 3 de março de 2018

Dói Gritar

“Dói Gritar!”

Faltou-me verdade nas veias negras do mistério, para te olhar.
Há um caminho indeciso a nascer, abruptamente se abrem portas desconhecidas fingindo ser para parecer, de mim se despedem as ilusões todos os dias, deita-se e nasce o sol bebendo das minhas indecisas palavras, misterioso é o sorriso quando os lábios deleitam corpo com sede rouca da voz magoada onde madrugo.
Não tivesse pensamentos aflitos a chamar por mim, ou, por ti, não viessem estes fantasmas abraçar-me com dor, que os gritos alimentam horizontes feridos onde nasci e parti para conhecer.
As guelras de um animal monstruoso respiram silêncio onde me habito, a minha casa são os dias roubando e contando minutos para nascer e me fazer, tenho figuras humanas aos gritos na cabeça distanciada de universo, um todo, agora que o corpo se decompõe deixando para trás fragmentos de memórias.
São cinzas que as mãos largam desinibidas, semeando pegadas os pés agarram estrada, tenho mundo aos gritos para meu delírio e tenho silêncio como martírio e tenho homem agarrando todos os pedaços de tempo para não mais ser atingido, perseguido...
Inimigo das forças de um vento, compõe este rio maravilhoso uma canção de partida, chega-me despedida deste mundo para não mais ver, cegueira será certamente feita das minhas palavras, das que se perdem sem ver, das que rasgam para não morrer, das que me intrigam para nascer...
Outra vez.
Vejo-te rosto velho, mirrado, tantas dores para beber, silêncio confundindo vida com morte, tenho-te dentro de mim aos gritos, tenho-te dentro de mim a correr corredores aflitos, tenho-te do tamanho do universo a angustiar o que resta de homem, de ser, dos gritos...
Como me dói a vida que ensina, tão farto do teu fardo nas costas pequenas, que o peso do mundo se esvai dos olhos crucificando os pés delirantes de uma caminhada insatisfeita, tenho-te nas minhas palavras afugentado e agora bebo-te com um sentimento pleno, com medo, agarro-me esperançado aos minutos redutos de um tempo.
Houvesse em mim mais para te dar que um abraço não seria mais que um fracasso, tenho-te nos rios da minha imaginação a plantar terras desertas, tenho-te chorando nas paredes de um quarto de silêncios, medos e gritos.
Tenho-te agarrado ao meu nascimento, ás memórias de um tempo, enganado nas palavras assustadas de um momento, tenho-te homem dilacerado no vento, comido nos raios de sol, dormindo nos infernos do pensamento, tenho-te meu, tenho-te carinhosamente nos meus olhos abraçando, tenho-te palavra e homem, velho, para nascer e crescer.
Custa-me tanto desprender-me, enfurecer-me, gritar-te aos ouvidos sem medo, acordar-te do sono profundo de silêncios...
Custa-me tanto entender-me e entender-te, custa-me tanto ser teu...

Teu filho.

Paulo Themudo 
in "Silêncio Nu" - Temas Originais (2010)

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